Ateliê Mão de Mãe traz energia vibrante da Tropicália à passarela da SPFW

Em meio a debates sobre conservadorismo e liberdade de expressão que temos vivido nos últimos tempos, o Ateliê Mão de Mãe apresentou no último sábado (18), a coleção ‘Manifesto Tropical’, na São Paulo Fashion Week. Vinicius Santana e Patrick Fortuna homenagearam a Tropicália. Movimento cultural e artístico dos anos 1960 que desafiou por meio da música e arte o autoritarismo vigente na época.

Estética do tropicalismo na passarela

Mantendo o crochê como carro-chefe, a coleção trouxe as técnicas manuais, características da marca, em cores mais vibrantes como vermelho e coral. O crochê foi visto em peças inteiras e em detalhes como flores, babados, franjas e aplicações; com destaque especial para a técnica de renda artesanal conhecida como frivolité, desenvolvida pelos próprios estilistas da marca.


Desfile da AMM na SPFW N60 (Foto: Reprodução/SPFW/Marcelo Soubhia/agfotosite)

A inspiração para as peças veio dos precursores da Tropicália: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e principalmente Gal Costa. “A gente estudou muito o que eles usavam e consumiam naquela época, então a gente vai do top curto à saia longa, trazendo muita referência de Gal, com babados, franjas, aplicações e detalhes artesanais, mantendo os códigos fiéis da marca.”, conta Vinicius Santana em entrevista à Capricho.


Desfile da AMM na SPFW N60 (Foto: Reprodução/SPFW/Marcelo Soubhia/agfotosite)

Além do artesanato, o linho também ganhou protagonismo na coleção e esteve presente em camisas e calças. A grande novidade desta temporada foi a presença de camisetas, que surgiram estampadas com frases que remetem ao tropicalismo, como “Divino Maravilhoso” sucesso imortalizado na voz de Gal Costa em 1969. A inclusão de camisetas ao catálogo foi uma estratégia para democratizar o acesso à marca. Bem como a parceria da grife com a tapeçaria Tach Rug, que enfeitou a passarela com tapetes que complementaram a narrativa do desfile no intuito de aproximar públicos mais jovens ao design e arquitetura.

 Arte como expressão de resistência e reflexão

Nos últimos anos o conservadorismo tem se fortalecido e influenciado diversos eixos da sociedade. Entretanto, manifestações artísticas seguem como forma de resistência e diálogo. O sucesso recente do filme ‘Ainda Estou Aqui’, de Walter Salles, que retrata as dores da ditadura militar e defende a importância democracia, é um exemplo disso e mostra como a arte tem papel essencial como instrumento político. Na passarela, Patrick e Vinicius retomaram esse espírito de crítica social presente no filme ao escolherem a Tropicália como referência artística.


 Desfile da AMM na SPFW N60 (Vídeo: Reprodução/Instagram/@ateliemaodemae)

“Esse tema surge da nossa preocupação com a política mundial. Há também um olhar muito preciso para o passado, [para o ano de] 1969 e o quão importante foi a gente ter o movimento Tropicália… então a coleção parte dessa memória, de a gente regatar também Gal, Bethânia, Gil e Caetano e a importância deles para a música, a arte e a moda como um todo.”, afirma Patrick Fortuna.

Assim como os artistas tropicalistas, que misturavam elementos da cultura nacional com influências estrangeiras para enfrentar o autoritarismo. Os estilistas celebraram o Brasil com cores vibrantes, crochês elaborados e técnicas manuais que exaltam nossa cultura.

Moda em movimento: SPFW encerra temporada com arte e emoção

A edição N60 do São Paulo Fashion Week encerrou sua temporada celebrando três décadas de história da moda brasileira. O último dia do evento foi marcado por um desfile memorável de Lino Villaventura, que reuniu meio século de criatividade, técnica e emoção em uma coleção que reafirmou a força da moda nacional e sua capacidade de se reinventar. Com 50 anos de experiência em moda, Lino Vilaventura apresentou verdadeiras obras de artes na passarela, mostrando mais uma vez sua marca registrada em ser autêntico.

Três décadas de estilo e inovação

Durante cinco dias, o SPFW transformou São Paulo em um grande palco de tendências. Foram dezenas de desfiles que conectaram gerações e mostraram o poder da moda como forma de expressão cultural. A temporada destacou a mistura entre o clássico e o contemporâneo, com coleções que exploraram diferentes texturas, tecidos e volumes.


Desfile de Lino Villaventura (Foto: reprodução/Instagram/@vammagazine)


Nas passarelas, a beleza natural também se destacou: peles luminosas, cabelos molhados e toques de brilho metálico deram o tom do verão 2026, reforçando a ideia de que o simples pode ser sofisticado. A influência dos anos 1980 apareceu em penteados volumosos, divisões laterais e referências sutis ao exagero elegante da época, provando que a moda é um ciclo constante de ressignificações.

Um encerramento digno das passarelas brasileiras

Lino Villaventura encerrou o evento com uma coleção que sintetizou o encontro entre arte, emoção e técnica apurada. Vestidos de corte preciso, bordados minuciosos e tecidos com brilho sutil criaram um espetáculo visual que emocionou o público e encerrou o evento com elegância.

Cada peça desfilada parecia contar uma história — ora nostálgica, ora ousada —, lembrando que a moda é também memória e sentimento. O vestido pêssego usado no encerramento, digno de um tapete vermelho, simbolizou o fechamento de uma edição especial e a abertura de novos caminhos para a moda brasileira.

Com isso, o SPFW reafirma seu papel como o principal espaço de criação e experimentação da América Latina, encerrando esta temporada com o mesmo brilho e intensidade que marcam sua trajetória de 30 anos.

Tom Martins apresenta sua coleção “Silêncio” na passarela no SPFW

No encerramento do São Paulo Fashion Week N60, Tom Martins escolheu o caminho menos óbvio: o do silêncio. Em uma temporada marcada pela busca por impacto e narrativas ruidosas, o estilista apresentou sua coleção “Silêncio” como um convite à escuta. Foram 24 looks desfilados sem trilha sonora, apenas o som dos passos dos modelos cortando o ar e o olhar atento da plateia, transformando o desfile em um exercício de presença.

A ausência de música não foi um vazio, mas um gesto. Ao abrir espaço para o som da própria roupa, Martins propôs uma experiência de desaceleração e de retorno à essência. O jeans, que marcou sua estreia no SPFW há dez anos, voltou como protagonista, agora acompanhado por tricoline de algodão, viscose, seda e náilon. O diálogo entre tecidos cria uma alfaiataria de toque urbano, que reflete o equilíbrio entre técnica e sensibilidade, duas marcas registradas do designer.

Silêncio como linguagem

Nesta coleção, Tom Martins substitui o ruído das tendências por uma moda que respira pausa. As peças aparecem em tons de branco, azul e preto, sem estampas, bordados ou prints, uma escolha que reforça o desejo por pureza e foco na forma. Babados, volumes e sobreposições constroem o ritmo da coleção, revelando um olhar mais maduro e meditativo sobre a própria criação.


Desfile da Martins no SPFW (Vídeo: reprodução/YouTube/@SPFWoficial)

A limpeza visual não significa distanciamento: é aproximação. Cada look parece traduzir o instante em que o barulho se apaga e a ideia se manifesta. O desfile convida o público a observar o que normalmente passa despercebido, o som do tecido, o gesto do movimento, a respiração da moda.

Entre o gesto e a escuta

Inspirado por pedidos de clientes antigos, o estilista revisita os primeiros códigos de sua marca, unindo passado e presente em composições que equilibram funcionalidade e poesia. O desfile termina como começou: em silêncio. Somente quando Martins surge na passarela, os aplausos rompem a quietude, encerrando o que foi, acima de tudo, um manifesto sobre o essencial.


"Silêncio", nova coleção da Martins no SPFW (Foto: reprodução/Instagram/@pumabrasil)

“Silêncio” não fala da ausência de som, mas do espaço fértil entre as ideias. Ao transformar a pausa em linguagem, Tom Martins reafirma que, na moda, o que permanece é sempre aquilo que escutamos com o olhar.

Dendezeiro traz a efervescência dos Bailes Black dos anos 1970 à passarela da SPFW

A marca baiana Dendezeiro, comandada pela dupla de estilistas Pedro Batalha e Hisan Silva, levou à passarela da São Paulo Fashion Week N60, no último sábado (18), o desfile “Brasiliano 3: Lei da Vadiagem”. A apresentação encerrou a trilogia que vem discutindo, por meio da moda, questões históricas e políticas ligadas à identidade negra e periférica no Brasil.

Desta vez com foco no impacto da legislação que criminalizava a pobreza e as manifestações culturais das periferias. A coleção traz referências dos Bailes Black dos anos 1970 e 1980.

Coleção “Brasiliano 3”

Criada em 1941, durante o Estado Novo, a chamada “Lei da Vadiagem” foi usada por décadas como instrumento de repressão. Essa lei permitia a prisão de indivíduos considerados “ociosos” ou “sem ocupação”, sendo mais aplicada a jovens negros que frequentavam espaços culturais como bailes funk, rodas de samba e blocos de carnaval.

É a partir dessa crítica que a Dendezeiro constrói sua narrativa visual. O desfile resgata e ressignifica a estética dos bailes black dos anos 1970 e 1980 e homenageia a resistência cultural que floresceu mesmo diante da criminalização imposta na época.


Desfile da Dendezeiro SPFW N60 (Foto: reprodução/Instagram/Danilo Grimaldi/@agfotosite)

Com uma coleção que mistura alfaiataria com referências do streetwear, a Dendezeiro fez da passarela um palco político. Os looks exploram padronagens como xadrez e listras, associadas às festas suburbanas, com tecidos como couro de tilápia, recortes ousados e ombros estruturados que desafiam o tradicionalismo da moda. O funk, movimento marginalizado e constantemente atacado, aparece aqui como protagonista do manifesto da marca.


MC Carol e MC Cabelinho desfilam para Dendezeiro (Foto: reprodução/Instagram/Danilo Grimaldi/@agfotosite)

MC Carol e Cabelinho se uniram ao casting de modelos, reforçando a presença de vozes periféricas e populares. A trilha sonora do desfile foi composta por funks de protesto e discursos potentes, como o de Mano Brown que completaram a atmosfera do desfile.


Desfile da Dendezeiro SPFW N60 (Vídeo: reprodução/Instagram/@eucabs)

Encerramento da trilogia “Brasiliano”

Desde 2022, a Dendezeiro vem desenvolvendo a série “Brasiliano” como forma de repensar os marcos da história brasileira pela ótica de quem foi sistematicamente silenciado. O primeiro capítulo da trilogia abordou o autoritarismo do Estado Novo; o segundo, a resistência da Cabanagem no Norte do Brasil; e o último, a criminalização da cultura negra por meio da Lei da Vadiagem.

A marca, nascida em 2018, em Salvador, vem se consolidando como uma das mais relevantes da nova geração da moda nacional. Não apenas por sua estética plural, mas por usar a moda como um canal de articulação política, de denúncia e de reconstrução identitária.

Santa Resistência leva as águas místicas do oceano à passarela da SPFW

No último sábado (18), a passarela da São Paulo Fashion Week foi inundada por “Águas de Si: Quando a Mulher Veste Mar”, nova coleção de verão da estilista baiana Mônica Sampaio, diretora criativa da grife Santa Resistência. Na passarela, referências a figuras femininas míticas, como Afrodite, Iemanjá, Iara e Atargatis deram o tom do desfile, que foi embalado por canções de Maria Bethânia e Clara Nunes.

Inspiração para a coleção: Mulheres oceano

Mônica Sampaio se inspirou na potência feminina para criar esta coleção: “Desde a primeira sereia, que surgiu na Odisseia, de Homero, nós temos a Vênus de Botticelli, da mitologia; sereia Iara, da nossa cultura indígena; e Iemanjá, da nossa cultura Yorubá, que atravessou o oceano vindo de território negro e é uma das divindades mais cultuadas no Brasil, independente da religião.” Mulheres fortes, protetoras dos mares. “Ao mesmo tempo que ela protege, leva para o fundo do mar também.”, reflete a estilista, que também traz a mulher real para o desfile “A esposa do marido pescador, as mulheres ribeirinhas que trabalham com escama de peixe, com artesanato e linha de pesca.”. A coleção simboliza a ligação mágica e de proteção entre o feminino e as águas.

Para dar forma a coleção, Mônica trouxe à passarela do evento texturas e volumes franzidos e formas sinuosas como as ondas e correntes marítimas. Predominaram as cores: verde-água, azul, branco, salmão e dourado.


Desfile Santa Resistência | SPFW N60 (Foto: reprodução/Instagram/@_the_vault_)

Colaborações femininas

A estilista baiana, é conhecida por se inspirar em figuras femininas fortes para suas coleções, como Maria Quitéria, Maria Padilha e Elizabeth de Toro, que foram homenageadas em coleções anteriores. Nesta coleção, Mônica foi além e contou com a colaboração de artistas talentosíssimas na criação: três estampas da coleção foram feitas a partir das aquarelas criadas pela designer Marcela Citon, uma delas, criada em parceria com a artista plástica Adriana Varejão, que fundiu duas de suas obras “Celacanto Provoca Maremoto” e “Figura de Convite III” em estampas de azulejo. Além delas, outra parceria que trouxe graciosidade ao desfile foram os dois looks esculturais de crochê, um representando Iemanjá e o outro águas-vivas, criados por Mônica e a artista têxtil, Milena Guerke.

Conhecidas por expressar arte em escamas, as artesãs da Associação Farol de Cabedelo, na Paraíba, assinaram dois looks: um vestido feito com linha de pesca e escamas de camurupim e um conjunto masculino do mesmo material. Entre suas referências e parcerias, Mônica quis transmitir nessa nova coleção leveza e fluidez e ao mesmo tempo a força e a potência presentes no interior feminino.

SPFW: Dario Mittmann transforma passarela em tabuleiro de jogo

Dario Mittmann transformou a SPFW N60 em um verdadeiro tabuleiro de jogo. Com uma passarela adesivada que lembrava peças de “Monopoly”, o estilista levou o público a uma experiência lúdica e provocante, repleta de cores, movimentos e referências à cultura pop e aos games. Celebridades como Kayblack, Xamã, MC PH, Duquesa e Grag Queen estiveram presentes, transformando o desfile em um espetáculo de moda, criatividade e ousadia. Cada detalhe da produção convidava o público a refletir sobre poder, estratégia e reinvenção, mostrando que, no universo da moda, cada passo é uma jogada.

Moda como jogo e poder em disputa

Inspirado no clássico “Monopoly”, Dario Mittmann convidou o público a refletir sobre quem realmente dita as regras do jogo da vida. Modelos desfilaram representando peões, casas e notas de dinheiro, numa metáfora que relaciona sobrevivência, estratégia e decisões que moldam trajetórias. Segundo o estilista, a proposta é simples, mas provocativa: “No jogo da vida, quem dita as regras?”. A combinação de bordados manuais, impressão 3D e estamparia digital reforçou o contraste entre tradição e inovação, características do trabalho do estilista, conferindo ao desfile um caráter autoral, contemporâneo e memorável. Cada look foi pensado para criar um diálogo entre passado e futuro, proporcionando ao público uma experiência visual e sensorial única.



Collab une moda e frescor em edição limitada

Além do desfile, Mittmann apresentou a parceria Clover by Dario Mittmann com a Closeup, lançando uma coleção de charms para o spray bucal Closeup Go. Os acessórios colecionáveis combinam design, funcionalidade e estética maximalista, resgatando os charms dos anos 2000 com uma abordagem moderna e divertida, alinhada à Geração Z. Três cases exclusivos e três looks inspirados nas clovers desfilaram pela primeira vez na passarela. Compactas e versáteis, as peças podem ser usadas como pingentes, mini bolsas ou elementos de estilo.

“Quis misturar cores vibrantes e referências pop com a energia divertida de Closeup”, explicou o designer. O resultado foi um desfile que mostrou que a moda também é um jogo de estilo, criatividade e ousadia, transportando o público para um universo em que cada detalhe tem significado.

SPFW: À La Garçonne abre o quarto dia da celebrando as fases do vestir

O quarto dia da São Paulo Fashion Week começou com a “À La Garçonne” mostrando que se vestir é um processo em constante transformação. A marca de Fábio Souza propôs uma reflexão sobre as fases do vestir ao longo do dia, da roupa de baixo à alfaiataria e entregou um desfile repleto de camadas de significado, como só ela sabe fazer.

O espetáculo das camadas

As primeiras criações surgiram leves e amplas, confeccionadas em tecidos naturais e levemente transparentes. Camisas, camisetas e peças de underwear apareciam à mostra, compondo um visual que, mesmo íntimo, transmitia sofisticação. À medida que os looks evoluíam, os tecidos ganhavam estrutura, revelando uma alfaiataria precisa e fluida. Fábio Souza demonstra, mais uma vez, como o simples pode se tornar extraordinário quando guiado pela intuição e pelo olhar apurado.

Mesmo com uma breve confusão na ordem da passarela, que por instantes desviou a atenção, o desfile se manteve coeso e envolvente. O underwear, antes em evidência, deu lugar a uma sensualidade mais sutil, marcada por recortes e aberturas estratégicas. Os brilhos acetinados e metálicos que fecharam o show trouxeram o tom sofisticado da noite, reafirmando a versatilidade da marca e seu domínio sobre diferentes estéticas. O desfile se transformou em um verdadeiro diálogo entre leveza e força, cotidiano e glamour.



Um ciclo de elegância

A proposta de Fábio Souza ficou evidente: representar o ciclo completo do vestir. Das primeiras horas do dia, com tecidos leves e cores neutras, até o cair da noite, com composições mais densas e glamourosas, a À La Garçonne mostra uma moda que se expressa por si só, sem exageros ou discursos. Com peças elaboradas a partir de tecidos de deadstock e construções cuidadosamente planejadas, a marca reafirma sua maturidade e autenticidade. Aqui, crescer significa aperfeiçoar o que já se faz bem e permitir que cada roupa conte sua própria história, camada por camada.

Marina Bitu leva pinturas modernistas à passarela da SPFW

Na última quinta-feira (16), a grife cearense Marina Bitu apresentou a coleção “Djanira” durante a São Paulo Fashion Week N60 (SPFW). A coleção homenageia a pintora modernista Djanira da Motta e Silva (1914-1979), que retratava o cotidiano e o trabalho manual das mulheres brasileiras que teciam, bordavam e costuravam. O desfile exaltou a moda artesanal com vestidos de tecidos fluidos e estampados com as trabalhos da artista.

Djanira como inspiração

Djanira foi uma das primeiras artistas brasileiras a valorizar, nas artes visuais, o trabalho das mulheres do campo, das casas e das comunidades. Suas pinturas, muitas vezes tidas como “ingênuas” pela crítica da época, são na verdade registros afetivos e políticos do Brasil da época, um país de rendeiras, costureiras, agricultoras e pescadoras.

A estilista Marina Bitu, ao lado do Instituto Pintora Djanira, responsável por preservar e difundir o legado da artista, criou uma coleção que parte diretamente de obras como: “Tecelã”, “Costureira”, “Bordadeira”, “Tecendo Rede” e “Escolhedoras de Café”; projetos da artista em que o trabalho manual feminino é exaltado como ato de criação, memória e principalmente resistência cultural. “Djanira foi uma cronista dos ritos e pintora de costumes. Seu olhar sobre o trabalho da mulher ecoa no que fazemos na Marina Bitu, onde a moda nasce das mãos de mulheres artesãs e da força do coletivo”, explica Marina, estilista da marca homônima.


Desfile Maria Bitu na SPFW N60 (Foto: reprodução/SPFW/Zé Takahashi/@agfotosite)

Desfile dividido em três atos

A coleção de Marina para a SPFW foi dividida em três núcleos criativos, ou “famílias”, cada um inspirado em uma faceta do universo retratado por Djanira. O primeiro ato, intitulado: “Ofícios” reflete a força dos traços da pintora, com paleta neutra e materiais artesanais, como palha, que já faz parte da identidade da grife, organza plissada e jacquard. Um dos destaques é o uso de escamas de peixe camurupim; descartadas pela pesca local e reaproveitadas por artesãos do litoral cearense, reafirmando o compromisso e responsabilidade da grife com a sustentabilidade do território.


Desfile Maria Bitu na SPFW N60 (Foto: reprodução/Instagram/@arlindogrund)

O segundo ato, intitulado: “Costureira” foi inspirado na obra homônima de 1951. Esta fase da coleção traduziu, por meio de tecidos como o georgette e couro de salmão, o universo sensível e detalhista do “feito à mão”. Bordados com botões de madrepérola evocam o cuidado e a precisão do trabalho manual e criam um diálogo simbólico entre Marina e Djanira, duas artistas que exaltam a força feminina. Por fim, em um tributo ao bordado cearense, o terceiro ato, intitulado “Bordadeira”, mergulha no universo das mulheres rendeiras, especialmente as que trabalham com bilro para trançar a renda. As peças trouxeram cetim de seda pura, tecidos plissados, acabamentos ondulados e fios de miçanga, compondo visuais fluidos e poéticos.


Desfile Maria Bitu na SPFW N60 (Vídeo: reprodução/Instagram/@spfw@marinabitu)

Moda como herança de resistência

A coleção “Djanira” é homenagem e também releitura contemporânea de valores que atravessam gerações, como o saber manual e a força coletiva feminina. Para Eduardo Taulois, fundador do Instituto Pintora Djanira, a coleção representa o encontro entre a arte popular e a moda autoral: “Djanira retratou o ‘fazimento’ do Brasil, colocando a cultura popular como protagonista da nossa história. Marina Bitu resgata esses saberes e cria um diálogo direto e sensível com a obra da artista.” A coleção trouxe para a passarela do evento a proposta de interligar gerações e reafirmar a moda como expressão cultural, meio de resistência e instrumento de valorização das mulheres que constroem, com as próprias mãos, a história do Brasil.

Catarina Mina celebra a flora brasileira na SPFW e projeta o artesanato brasileiro no mundo

A marca cearense Catarina Mina apresentou na última quinta-feira (16), durante a São Paulo Fashion Week (SPFW), uma coleção que celebra a sustentabilidade e a criação artesanal. Intitulada Carnaúba, a coleção reafirma o compromisso da marca com o artesanato local como ferramenta de transformação social e destaca um trabalho que conecta comunidades de artesãs do interior do país à maior passarela da América Latina. A estilista Celina Hissa trouxe à passarela da SPFW a palha da carnaúba em bordados manuais feitos em tecidos finos de seda, linho, cambraia de rami e algodão. Em looks com silhuetas alongadas, próximas ao corpo, mais com movimento e transparências.

Carnaúba: a palmeira que molda a identidade da coleção

A carnaúba, conhecida como a “árvore da vida” no Nordeste, ganhou protagonismo na nova coleção da Catarina Mina. Não apenas pela presença estética, mas por tudo que ela representa: sustentabilidade, tradição e renovação. A palmeira – da qual se aproveita tudo, do caule ao fruto – esteve presente no início da grife cearense, quando a estilista Celina Hissa passou a mesclar sua palha com crochê em bolsas feitas manualmente. Quinze anos depois, a carnaúba retorna, agora, como elemento central. Reinterpretada em peças mais complexas, como saias esculturais, cintos amplos e estampas aquareladas. A passarela foi dominada por tons naturais de verde, terracota e branco.


Desfile Catarina Mina SPFW N60 (Foto: reprodução/SPFW/@agfotosite)

A coleção trouxe soluções pensadas para facilitar a produção em maior escala, mas sem perder a essência artesanal. O crochê aparece pontualmente em detalhes, e os acessórios surgem em formatos mais funcionais, como bolsas tipo sacola e pochetes e mostram que o design artesanal também pode ser funcional, conectando-se com as demandas do mercado nacional e internacional de moda.

Do interior do Nordeste às passarelas

Mais do que uma nova coleção, o desfile da Catarina Mina apresentou o amadurecimento de um modelo de negócios que tem como base a valorização do saber artesanal, passado de geração em geração. O que começou com a palha e o crochê no Ceará, hoje se multiplica em várias frentes de atuação. A grife estruturou ao longo dos anos redes com comunidades artesãs em várias regiões do país, sempre aplicando metodologias que incentivam a autonomia e a formação técnica de mulheres.


Desfile Catarina Mina SPFW N60 (Foto: reprodução/SPFW/@agfotosite)

Um grande exemplo disso, é a parceria com as bordadeiras de Caicó, no Rio Grande do Norte, que trouxeram para a coleção bordados inspirados na flora da Caatinga. Elas se juntam às rendeiras de bilro, crocheteiras e artesãs da renda de Richelieu, que já fazem parte da base criativa da grife. O resultado dessa união, são peças que carregam o DNA da tradição e ao mesmo tempo se inserem com naturalidade em um guarda-roupa contemporâneo, com vestidos de linho, conjuntos de cambraia de rami e tênis usados com peças artesanais.


Desfile Catarina Mina SPFW N60 (Vídeo: reprodução/Instagram/@catarinamina)

Por fim, a visão de Celina Hissa é clara, segundo ela, o artesanal precisa ser economicamente viável. Por isso, a marca investe em adaptar técnicas tradicionais a processos de produção mais ágeis e eficientes, sem abrir mão do trabalho manual. Essa estratégia permitiu, inclusive, a primeira parceria internacional da Catarina Mina com a marca de calçados francesa Veja. O resultado dessa parceria é uma papete adornada com crochês feitos por artesãs brasileiras e montada por sapateiros da grife europeia.

Forca nas alturas: o desfile mais ousado da SPFW N60

O desfile da Forca Studio no São Paulo Fashion Week N60 levou o público a uma experiência fora do comum. Realizado no Aeroporto Campo de Marte, o evento começou com um salto de paraquedas, simbolizando o novo momento da marca, que busca “voos mais altos” com a estreia no calendário de atacado e o lançamento de uma linha sob medida. Sob a direção criativa de Vivian Rivaben e Silvio De Marchi, a coleção “Helyx” uniu adrenalina, movimento e design urbano em uma passarela marcada pela ousadia.

Moda em movimento

Inspirada em esportes radicais e na energia das ruas paulistanas, a coleção trouxe cerca de 50 looks com cortes aerodinâmicos e atitude clubber. Couro, jacquard, chiffon e denim formaram uma mistura equilibrada entre rigidez e fluidez. As peças mostraram a força do utilitarismo, com jaquetas repletas de bolsos, calças com fechos metálicos e macacões ajustados. A cartela de cores seguiu a estética dos uniformes, indo do off-white e gelo ao verde oliva e vermelho queimado.


Desfile da Forca Studio (Vídeo: reprodução/Instagram/@ambulatoriodamoda)


A Forca Studio apresentou ainda uma collab com a criadora Cece, que trouxe uma linha de bodies de látex, reforçando o lado futurista e performático da marca. Os acessórios — como luvas volumosas e braçadeiras inspiradas em equipamentos de paraquedismo — completaram o visual esportivo e conceitual da coleção.

Presenças e atmosfera

Entre os destaques da passarela estavam as atrizes Alinne Moraes e Vitória Strada, além do cantor mexicano Christian Chávez, que trouxeram brilho e carisma ao desfile. Com trilha sonora assinada por Silenzo/Urro e beleza de Maxi Weber, o clima do evento foi de pura energia.


Desfile da Forca Studio (Vídeo: reprodução/Instagram/@spfw)


Mais do que apresentar uma coleção, a Forca Studio mostrou um manifesto sobre coragem, reinvenção e liberdade. Em um cenário simbólico, onde cada detalhe remetia ao impulso de arriscar, a marca deixou claro que, quando a moda decide saltar do céu, o resultado só pode ser de tirar o fôlego.